O esporte sempre traz a união dos povos. É quase a única força que consegue uni-los.' A frase é do embaixador dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro em Belém, Cyro Delgado, e foi pronunciada na cerimônia oficial de abertura do revezamento da tocha olímpica, realizada no Estádio Mangueirão. A fala, que antecipou uma festa que se desdobraria em seis horas de percurso por 14 bairros da capital, é a síntese do encontro de atletas, políticos, estudantes, imprensa e um grande número de curiosos que fizeram de Belém 'a número um das cidades' por onde a chama passou - palavras do próprio Cyro. 'Essa passagem é importante para que as pessoas do mundo saibam o que Brasil tem de qualidade, de notoriedade', ressaltou o embaixador. Mas a festa em torno do símbolo maior do prenúncio dos Jogos Pan-Americanos apenas apresentou ao mundo o que já se esperava da capital paraense - uma cidade festiva, participativa, com centenas de ciclistas e corredores acompanhando a tocha ao longo do trajeto - mas também violenta, com o registro de assaltos e prisões.
O discurso de Cyro foi reforçado pela assinatura da Bandeira Brasileira pela governadora do Estado, Ana Júlia Carepa, e pelo prefeito de Belém, Duciomar Costa. Às 9 horas, ambos acenderiam, juntos, a pira olímpica dos Jogos Pan-Americanos de 2007.
Empolgado e com o braço ligeiramente queimado pela chama da pira, o prefeito Duciomar Costa considera que o evento é uma oportunidade 'de mostrar para o Brasil e para o mundo o que somos - a capital da Amazônia'. 'A tocha vem se somar ao calor do povo paraense e, com isso, consolidar essa marca da integração. Também é um passo importante para que os organizadores da Copa de 2014 possam compreender que temos capacidade de sediar os jogos. Em primeiro lugar, por Belém ser a capital da Amazônia. É uma cidade que conta com dois milhões de habitantes, tem um estádio olímpico que é um dos melhores do Brasil. Temos a condição de, até 2014, através dos investimentos que vão ser feitos, atender às exigências. Com certeza, na região Norte, é a cidade que mais tem condições de sediar a Copa do Mundo.'Remo e Paysandu marcaram presença
A presença da Tocha do Pan é festa para o povo, então Remo e Paysandu não poderiam ficar de fora da programação. Afinal, como são as maiores paixão do amante de esportes local, deveriam marcar presença no grande evento, que movimentou a cidade ontem. Para isso os presidentes Raimundo Ribeiro, do Remo, e o presidente do Conselho Deliberativo do Paysandu, Ricardo Rezende, foram convocados como condutores da tocha.
Raimundo Ribeiro pegou a tocha quase em frente à sede do Remo e depois entregou justamente para Ricardo Rezende na avenida Nazaré com a 14 de Março. Raimundo Ribeiro, depois de respirar fundo e recuperar o fôlego, falou sobre momento histórico. ‘’Sei que daqui a anos serei lembrado pelos meus netos por este ato pátrio. É um momento de muito valor para nós, do Pará. A tocha é algo maravilhoso que une o povo pelo esporte.’’
Ricardo Rezende disse que 'foi uma sensação muita boa, você cercado por gente do povo sabendo que está levando uma tocha que representa muito. Que esta chama seja uma mensagem de muito sucesso para nós no futuro’’, disse.
Surpresa e curiosidade sobre o evento
Por onde passava, a comitiva que acompanhava os atletas que seguravam a tocha olímpica chamava a atenção das pessoas que paravam para acompanhá-la. Antônio Freitas, 52 anos, proprietário da lanchonete Del Lanches, localizada no mercado de ferro do Ver-o-Peso, parou para ver a passagem da tocha. 'É a primeira vez que eu estou vendo passar aqui. Para mim, isso é mais ou menos', comentou.
Também os garis que faziam a limpeza do mercado pararam para ver a festa. O gari Paulo César de Lima, de 34 anos, considera importante o evento para a capital. Empolgado, ele diz que vai acompanhar o Pan na televisão de casa, e considera que varrer as calçadas de Belém já é um grande esporte. 'É a primeira vez que isso está acontecendo. Além de mostrar nosso maior ponto turístico, que é o Ver-o-Peso.' O ambulante Vanderley Dias, de 48 anos, diz que, se pudesse, iria ao Rio de Janeiro assistir ao Pan por um motivo bem especial. 'Queria ver aquelas atletas do vôlei, de shortinho. Por elas a torcida dá o sangue', brinca.
O revezamento foi acompanhado por atletas veteranos como José Alberto Tamos, de 60 anos, que correu próximo à comitiva da avenida Almirante Barroso até a avenida José Bonifácio. 'É um evento muito importante para o estado do Pará e também para Belém. Vai ficar para a história', comemorava. Jorge Nogueira, de 48 anos, campeão da 1ª Corrida da Independência e participante de competições como a São Silvestre, considera a passagem da tocha um incentivo para os atletas paraenses. 'Não estou cansado. Vou correr até o final. Só estou um pouco mal porque uma bicicleta me bateu!', contou.
A passagem da Tocha atraiu também violência. Duas mulheres e um homem foram presos em flagrante por assalto a estudantes que saíam de uma escola localizada na avenida Tamandar. Eles faziam um 'arrastão' quando foram impedidos por pessoas que testemunhavam os assaltos. A desorganização também marcou a chegada da Tocha, com a imprensa sendo impedida de ter acesso a alguns setores do evento e a não-distribuição de credenciais aos repórteres. Um jornalista que tentava se aproximar da van que transportava profissionais do Comitê Olímpico foi expulso, aos empurrões, do automóvel em movimento.
Pinduca, rei do carimbó, fica nas 'nuvens'
A tocha andou rápida no trajeto do Mangueirão à Praça da Repúbica, quando foi acesa oficialmente pelo prefeito Duciomar Costa diante de mais de três mil pessoas. O cortejo teve uma parada de 20 minutos na praça Frei Caetano Brandão, em frente à sede da Fundação Cultural do Município de Belém (Fumbel), onde foi instalado um palanque para o prefeito fazer um pronunciamento ao público presente.
Houve apresentação de quadrilhas. O comboio seguiu em frente com a tocha sob as mãos do atleta paraolimpico Cristiano Farias, que vai representar o estado no Parapan-americano no Rio de Janeiro, no mês de agosto. Passando de mão em mão, a tocha não parou em nenhum ponto, cruzando os bairros sob aplausos do belenense.
Pinduca, mestre do carimbó paraense, sentiu a satisfação do conduzir a tocha. Ainda mostrando muita disposição física, Pinduca só lamentou o pequeno percurso, mas se disse emocionado pela oportunidade que teve em segurá-la. ‘’Estou nas nuvens’’, contou.
Personalidades entre os escolhidos
Darleny Cristina Serrão, aluna há cinco meses de vôlei de quadra do 'Papo Cabeça', acendeu a tocha e deu início ao revezamento, percorrendo os primeiros 400 metros do trajeto, saindo do Mangueirão pela Rodovia Augusto Montenegro. De lá, a tocha seguiu pela avenida Augusto Montenegro até a Almirante Barroso. Em seguida, a comitiva dobrou na travessa Lomas Valentinas e seguiu até o centro da cidade.
Um dos principais trechos do percurso foi realizado no centro histórico do Belém. Na frente da Fundação Cultural do Município de Belém (Fumbel), à praça Frei Caetano Brandão, o prefeito Duciomar Costa tocaria a tocha novamente, recebendo-a das mãos de Higor Ferreira Lobato, de 15 anos, campeão Pan-Americano de judô na categoria juvenil e o primeiro paraense a participar dessa competição. Ele é um dos vencedores do Troféu Rômulo Maiorana. 'A emoção é inexplicável. Tinham me perguntado se ela estava pesada, se estava quente. Mas eu não senti nada. Não senti os 400 metros que corri. Foi muita emoção', comemorou.
Das mãos do prefeito, a tocha seguiu com o corredor Cristiano Farias, atleta classificado para as provas dos 5 mil e 10 mil metros rasos dos Jogos Paraolímpicos do Pan. Cristiano, que é cego, descreve em sensações a importância que o momento teve para sua carreira: 'A minha emoção não é a mesma dos que enxergam. Eu sinto a tocha no tocar. Sinto a emoção das pessoas ao redor. É um incentivo maior para eu poder trazer resultados dos jogos', revelou.
Entre as personalidades que conduziram a Tocha estão também os atletas Chinzô Machida, Naildes de Jesus Mafra (Nana, da Seleção Brasileira de Basquete em Cadeira de Rodas, que irá ao ParaPan), as irmãs Daniella e Gabriela Figueiredo, da Seleção Brasileira Juvenil de nado sincronizado, Renard Soares, campeão brasileiro de judô e a nadadora Thaissa Arruda. Cristiano e Nana terão o apoio da Secretaria Executiva de Esporte e Lazer (Seel). O jornalista Mauro Neto, chefe de reportagem de O Liberal, também foi escolhido para conduzir a tocha. As personalidades foram definidas pela Samsung, Governo do Estado, Prefeitura Municipal de Belém, Ministério dos Desportos e Comitê Organizador dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro (CO-Rio).
Na Praça da República, a Pira Olímpica foi acesa pela atleta Naiane Alves, jogadora da seleção paraense de voleibol, encerrando o revezamento.
(Fonte: Amazônia Hoje)
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