Home Data de criação : 07/05/08 Última atualização : 08/12/29 11:38 / 905 Artigos publicados
 

Realidade cada dia mais difícil  (Últimas do Leão) escrito em quinta 23 outubro 2008 12:47

 

A pouco mais de um mês da realização das eleições no Remo, o clube vive hoje como uma ilha isolada, fragmentada e entregue a sua própria sorte. Vivendo a maior crise política e financeira da sua história, o Leão mostra-se desgovernado, desmotivado e um alvo fácil para a ação de empresários e agentes de jogadores. A saída para o Remo gira em torno de duas perguntas. Vale a pena o clube permanecer desunido e arriscar chegar ao fundo do poço? Ou seria melhor seus caciques despirem de todas as vaidades, deixar as armas de lado e, com muita humildade, começar tudo do zero?

Questionado assim, qualquer torcedor azulino responderia a segunda opção. Torcedor sim, mas dirigentes e caciques políticos não. Os sócios e a torcida do Remo já demonstraram claramente seu amor pelo clube na histórica campanha da Série C de 2005, quando o time conquistou seu único título nacional. Os cartolas também declararam seu amor, mas um amor egoísta que tem como território-limite o umbigo de cada um. Prova maior foram as últimas reuniões do Conselho Deliberativo, onde a unanimidade nunca foi alcançada e várias oportunidades de salvar ou ao menos minimizar os efeitos da crise foram desperdiçadas.

A tentativa de antecipar as eleições, barrada por uma medida judicial, acirrou ainda mais os ânimos, as ditas redes de intrigas e, principalmente, a disputa política pelo poder azulino. O tempero do duelo entre situação e oposição está sendo o ódio, sentimento que não constrói nada e que vem aprofundando o Remo ainda mais no abismo. 'Fizemos tudo que podíamos para negociar com a atual diretoria e encontrar uma saída política para a crise do Remo. Mas parece que tudo não passou de uma miragem. Esse pessoal (atual direção) quer enganar a quem? Eles estão pensando que com uma varinha mágica vão salvar o Remo?', questiona um integrante de um dos grupos de oposição, que pediu para ter seu nome mantido em sigilo.

A solução negociada parece cada vez mais distante do Baenão. Mas ainda é a única alternativa para o Remo. Enquanto os caciques azulinos batem de frente, representantes de cada uma das facções do clube tentam criar novas lideranças enquanto procuram manter o diálogo aberto. A saída seria encontrar uma terceira via para driblar os conflitos políticos e jurídicos do clube. O problema é que tanto situação como oposição colocam os pés pelas mãos.

Completamente isolado, o presidente Raimundo Ribeiro governa sem o apoio das principais lideranças remistas e, principalmente, sem o respaldo do torcedor. Com a concordância do Conselho Deliberativo, Ribeiro irá continuar no poder até o fim de seu mandato, em dezembro, quando haverá eleições para os poderes executivos e deliberativos. Esse é exatamente o problema do Remo. Tudo irá continuar como antes, ou seja, cada um cuidando da sua vida e o clube afundando no abismo.

Grupo estaria interessado em levar Da Silva e Cicinho

Nos gramados, o desinteresse e a apatia demonstrados pelos jogadores na estréia da Copa do Centenário foi mais uma evidência da pré-falência azulina. Sem receber salários há mais de três meses, nem mesmo as jovens promessas recém-saídas da base conseguiram encontrar motivação para enfrentar a Tuna Luso. O técnico Carlinhos Dorneles, outro credor de longa data do clube, chegou a ameaçar com barração aqueles atletas desmotivados. Mas diante de uma nova debandada de valores, o treinador foi forçado a mudar de discurso sob o risco de ficar sem opções para o Re x Pa do dia 1º de novembro.

Ontem, com um dia de atraso, a diretoria azulina descobriu que um grupo de empresários estava tirando proveito dos três meses de salários atrasados do elenco azulino para aliciar o zagueiro Da Silva e o lateral-direito Cicinho.

Ambos sumiram do clube na segunda-feira, pela manhã, logo após o treinamento no Baenão. Os dois atletas, que estavam morando na Toca do Leão, recolheram todos os seus objetos pessoais e não apareceram para treinar na terça-feira. As últimas informações eram de que, patrocinados por empresários, eles estariam prestes a dar entrada na Justiça do Trabalho com pedido de rescisão de contrato. A base para a quebra unilateral seriam os salários atrasados e o não recolhimento do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Seviço).

Diante das ausências e dos boatos, o coordenador de futebol Sérgio Papelin tentou manter contato com a dupla. Ele descobriu que eles viajaram para suas cidades natais - Da Silva para Itinga, na divisa com o Maranhão, e Cicinho para Inhangapi. 'Não consegui falar com o Cicinho, mas o Da Silva me garantiu que voltaria a treinar amanhã (hoje). Só não sei se essa foi uma manobra para ganhar tempo e poder surpreender o clube com uma ação judicial', comentou Papelin, claramente desconfiado.

Segundo o que se especulava por toda a quarta-feira, o assédio aos jovens remistas teria sido feito pelo empresário de jogadores João Carlos Boiadeiro, que esteve em Belém no final de semana passada observando jovens atletas de Remo e Paysandu na Copa do Centenário. Ele teria como um de seus prepostos em Belém o ex-jogador Flávio Goiano, atualmente treinador do Pinheirense. Esta informação, contudo, foi desmentida pelo próprio Flávio Goiano. Ele garantiu que está direcionando todos os seus esforços para este início de carreira como treinador e não tem nada a ver com o 'sumiço' de Cicinho e Da Silva.

Outras especulações de bastidores davam conta de que o destino dos dois remistas já estaria selado. Da Silva seria encaminhado para o futebol português, enquanto que Cicinho estaria com um pé no Vasco da Gama-RJ.

Charles e Joãozinho pedem para ir embora

No meio da balbúrdia em que se transformou o cotidiano remista, o zagueiro Charles e o atacante Joãozinho demonstraram mais coragem e determinação do que muitos cartolas do clube. Alegando problemas financeiros, ambos decidiram abandonar os treinamentos e pedir a rescisão de contrato. A diretoria, lenta como sempre, estuda os pedidos. Contudo, não deve forçar a permanência dos atletas no Baenão, principalmente se eles abrirem mãos dos salários em atraso.

Os comentários dão conta de que o real real motivo do pedido de rescisão dos atletas é o interesse do técnico Artur Oliveira em levá-los para o Castanhal, que disputa a fase preliminar do Parazão em dezembro. Joãozinho, que tem direitos federativos vinculados ao Ananindeua, seria emprestado sob a garantia de que tanto o jogador como o próprio Artur retornariam à Tartaruga para a fase principal do campeonato, a partir de janeiro.

De acordo com o coordenador de futebol do clube, Sérgio Papelin, a solicitação dos atletas será submetida a avaliação do advogado André Meira e, posteriormente, encaminhada ao presidente Raimundo Ribeiro.

Dornelles volta atrás sobre medalhões

O técnico do Remo, Carlinhos Dornelles, parece ter mudado de idéia quanto ao aproveitamento do sub-20 do clube no clássico Re x Pa do dia 1º de novembro. Pelo menos foi o que ele deixou transparecer no coletivo de ontem pela manhã, no Baenão, quando voltou a utilizar os profissionais azulinos na formação principal. Apennas o zagueiro Diego Barros, alegando problemas clínicos, não treinou. Os atletas que não participaram do treino anterior, caso de Marlon e Jóbson, por exemplo, voltaram a se movimentar normalmente. O treinador evitou voltar a falar sobre o afastamento dos chamados 'medalhões'.

Mesmo contando com quase todos os profissionais, Dornelles se viu obrigado a mexer em alguns setores do time. No ataque ele utilizou Edilson no lugar de Joãozinho, que retornará ao Ananindeua. O atleta teve uma conversa com o treinador, antes da movimentação, quando praticamente selou seu adeus ao Leão.

Mesmo tendo treinado, o zagueiro Charles também deverá seguir o mesmo destino de Joãozinho, retornando ao seu clube de origem, o Ananindeua. O atleta já teria pedido rescisão de seu contrato com o Leão. Outra novidade foi a presença do garoto Jejê no posto de William.

Promotor quer impedir o pleito

O promotor de justiça Domingos Sávio, de 45 anos, revelou, ontem, que ainda estuda, junto com um grupo de torcedores do Remo, a possibilidade de entrar com pedido de liminar na justiça a fim de impedir a antecipação do pleito que elegerá o sucessor do presidente Raimundo Ribeiro Filho. A eleição está marcada para o dia 10 de novembro, conforme estabelecido em reunião do Conselho Deliberativo do clube, na última segunda-feira. Pelos estatutos azulinos, o pleito só deveria ocorrer na primeira quinzena de dezembro, com o presidente eleito assumindo o cargo no início do mês de janeiro de 2009.

Sávio afirmou que o Conselho voltou a errar ao antecipar o pleito, como já havia acontecido com o estabelecimento da eleição do dia 29 de setembro, que acabou sendo embargada por uma liminar obtida pelo sócio do clube Marco Aurélio de Jesus Mendes. 'O certo, na minha opinião, era cumprir o que determina o estatuto do clube, deixando para eleger o presidente somente em dezembro', apontou. Na avaliação de Sávio, que é membro do Condel, mais uma vez a 'carta magna' do clube foi desrespeitada.

'O pior é que pode se criar dentro do Remo a cultura de desrespeito aos estatutos, que é uma espécie de constituição do clube', analisou. O conselheiro informou que ainda estuda a possibilidade de entrar na justiça com pedido de liminar, mas que isso não vem sendo feito apenas por ele. 'Trata-se de um grupo de torcedores do Remo. Alguns nem são conselheiros, mas tem o direito de exigir que o estatuto seja cumprido', disse. Como a eleição ainda está longe, o conselheiro lembrou que tem muito tempo para avaliar a situação com bastante calma.

Sávio, que não compareceu à reunião do Condel na última segunda-feira, alegando compromissos particulares, criticou a decisão do Conselho de tornar o sócio Marco Aurélio de Jesus Mendes persona non grata ao clube. 'Foi um outro erro grave, já que a constituição assegura a qualquer cidadão recorrer à justiça. O que mais me espanta é saber que o pedido do título partiu do doutor Altemar Paz, que é juiz', arrematou Sávio. Até mesmo o fato de a antecipação do pleito ter sido decidida por apenas 25 dos pouco mais de 140 conselheiros foi criticada pelo promotor. 'Faltou legitimidade', resumiu.

(Fonte: Jornal Amazônia-pa)

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